A obra “Urubu que logo somos: crônicas e memórias de um devir Flamengo” foi escrita pelo Professor Dr. Fábio Zoboli da Universidade Federal de Sergipe – UFS. Em sua trajetória acadêmica, Zoboli fez doutorado em Educação na Universidade Federal da Bahia – UFBA, fez também Pós-doutorado em Educação na Universidade Nacional de La Plata – UNLP (Argentina), atualmente é professor no Departamento de Educação Física e do Programa de Pós-Graduação em Educação na UFS, além de ser membro/coordenador do grupo de pesquisa “Corpolitica”.
O livro é uma coletânea que reúne uma série de crônicas que abordam o Clube de Regatas do Flamengo – CRF, clube do “coração” do autor, e mais especificamente ainda, sobre o time de futebol e suas várias dimensões. Nele, constam crônicas sobre fatos marcantes do clube, assim como há um conjunto de crônicas que tratam de personagens ligados a esse universo – principalmente jogadores de futebol – que vestiram a camisa do clube. Zoboli vai estabelecer paralelos entre esses elementos com figuras religiosas (de matriz africana e cristã) e também sobre personagens das mitologias greco-romanas e com as artes plásticas. Vale destacar também que o autor elabora uma crônica para homenagear o seu tio que o ensinou a torcer para o Flamengo.
A seção “Como tudo começou” possui duas crônicas e nelas conta-se para o(a) leitor(a) como se deu o primeiro contato do autor com aquilo que se tornaria uma das suas maiores paixões, o Clube de Regatas do Flamengo, como seu tio Osvaldo foi importante para que isso ocorresse e como eles viveram momentos importantes juntos comemorando vitórias do Flamengo. Ainda, como o Flamengo foi criado por Deus, relacionando como se deu a criação do mundo com a criação do Flamengo por Deus, passando por seu surgimento no remo e sua entrada para o futebol após um acontecimento em que pessoas do Fluminense decidiram sair do clube e se juntar ao Flamengo, passando pelos símbolos do clube, pela torcida e sua paixão, até a criação dos demais clubes e dos campeonatos para que houvesse disputas.
Na
seção “O urubu que logo sou... que logo somos” os autores participantes da
coletânea trabalham com 6 (seis) crônicas que abordam questões de simbolismo,
amor e grandeza do Flamengo, mostrando-nos como alguns símbolos do clube
surgiram, que alguns deles são utilizados pelas torcidas adversárias de forma
preconceituosa para menosprezar o torcedor e o clube, e para isso são
utilizadas ligações entre os símbolos, os acontecimentos com músicas, pessoas
importantes e questões de pluralidade e singularidade.
Já
na seção “O panteão” os autores Fabio Zoboli e Elder Silva Correia constroem
uma série de crônicas que elevam os jogadores do histórico time do Flamengo de
1981 ao estatuto de entidades míticas. A proposta dos textos consiste em
articular futebol, mitologia e cultura popular, utilizando referências da
mitologia grega, da cosmologia iorubá e do folclore brasileiro como metáforas
interpretativas das características técnicas e da importância histórica dos
atletas.
O
argumento central desenvolvido pelos autores é que o futebol, assim como as
narrativas míticas das sociedades antigas, produz seus próprios deuses e
heróis. Nesse sentido, o campo de jogo é compreendido como um espaço simbólico
e ritualístico, no qual feitos esportivos assumem contornos sobre-humanos e
passam a integrar o imaginário coletivo da torcida. Essa abordagem confere ao
futebol uma dimensão cultural que extrapola o entretenimento, aproximando-o de
manifestações religiosas e mitológicas.
Ao
longo da seção supracitada, os autores dedicam crônicas específicas a cada
jogador, estabelecendo associações simbólicas que buscam traduzir suas funções
em campo. Mozer, por exemplo, é comparado a Argos Panoptes, gigante da
mitologia grega dotado de cem olhos, metáfora que enfatiza sua vigilância
constante na defesa, atuando como guardião do gol. Júnior, por sua vez, é
associado a Exu, orixá mensageiro da mitologia iorubá, responsável por abrir
caminhos e estabelecer conexões, analogia que evidencia sua capacidade de
articular defesa e ataque com inteligência e ambidestria.
Andrade
é relacionado a Hefesto, o deus ferreiro, sendo descrito como um “jogador
metalúrgico” pela força física na marcação, mas também como um “ourives” pela
precisão e qualidade técnica de seus passes. Já a trajetória de Tita é
interpretada à luz da tragédia de Édipo, destacando o drama simbólico de
enfrentar o clube rival, retornar ao Flamengo e lidar com seu próprio destino
esportivo.
Outras
associações reforçam a diversidade cultural da análise. Adílio é comparado a
Xangô, orixá da justiça e do fogo, ressaltando sua ancestralidade e realeza em
campo, enquanto Nunes, o “João Danado”, é associado a Eros, deus do amor, cujos
gols são descritos como flechadas passionais que inflamam a torcida. Zico,
maior ídolo do clube, é vinculado à figura do alfaiate, profissão de seu pai,
sendo apresentado como o artífice que “costura” as jogadas com precisão e
harmonia.
Além
disso, Lico é associado ao Boto-cor-de-rosa, figura do folclore amazônico,
destacando sua habilidade de seduzir e surpreender os adversários. Cantareli é
comparado a mágicos ilusionistas, como Houdini, em razão de suas defesas
espetaculares, enquanto Carpegiani, técnico da equipe, é relacionado ao
Saci-Pererê, símbolo da astúcia e da travessura, responsável por armar
estratégias e confundir os oponentes.
A
seção se encerra com um paralelo simbólico entre os três títulos conquistados
pelo Flamengo em 21 dias no ano de 1981, Campeonato Carioca, Copa Libertadores
da América e Mundial Interclubes, e os três santos juninos: Santo Antônio, São
João e São Pedro. Essa analogia reforça a ideia de que aquele período
representou um momento de “milagre” esportivo, no qual o sagrado e o profano se
entrelaçam para consolidar a geração mais vitoriosa da história do clube.
Em
outra seção, intitulada “Coloca na moldura”, Zoboli brinca com as mais diversas
mitologias (da mitologia grega até a mitologia nordestina) e com as artes
plásticas para falar sobre personagens que, para o autor, e também para toda a
nação rubro-negra, são considerados importantes ou que marcaram época vestindo
a camisa do Flamengo. Um ponto a ser observado é a última crônica da referida
seção, pois esta não se refere somente a um personagem, muito menos estabelece alguma
relação com seres mitológicos ou com algum componente da arte. Nessa crônica, abre-se
espaço para falar sobre o sentido que o futebol dá aos jogadores com apelidos que são remetidos a animais, principalmente no Flamengo, e a
ressignificação que esses sentidos sofrem ao serem deslocados para o contexto
do futebol.
Além
disso, o título da obra funciona como uma metáfora que ajuda a entender o
sentido das crônicas. Ele sugere uma reflexão sobre a condição humana, marcada
pela adaptação às regras sociais e pela repetição de comportamentos. Ao longo da
seção, Zoboli e o conjunto de autores e autoras colaboradores(as) da coletânea
levam o(a) leitor(a) a pensar sobre ações que são consideradas normais, mas que
merecem ser questionadas.
Em
“Chutando de canhota”, o autor se propõe a falar não somente de jogadores de
futebol que passaram pelo Flamengo, mas também de atletas de outras modalidades
esportivas que estão presentes no clube (como, por exemplo, o remo e o vôlei).
Entretanto, diferente das outras seções, aqui, em específico, Zoboli traz uma
homenagem a personagens que lutaram por ideais políticos de gênero, raça e
liberdade em uma época em que a sociedade brasileira vivia em censura devido à
ditadura vigente no país.
Cabe
aqui uma menção honrosa dessa seção à crônica destinada à tragédia que
aconteceu no “Ninho do Urubu” – o Centro de Treinamento do Flamengo – “Os 10
meninos do Ninho, ou sobre Pinóquios e Come-Fogos”. Nesta crônica, o autor vai
prestar uma homenagem aos 10 garotos que faleceram no incêndio do Ninho do
Urubu, relacionando com a história original de Pinóquio, traçando comparações
sobre infância, sonhos, atuação de gestores e sobre negócios no futebol.
Por
fim, a obra organizada por Fábio Zoboli e colaboradores(as) é um deleite para
quem é flamenguista (torcedor do Flamengo), mas também é uma ótima recomendação
de leitura para quem não tem relação com este clube e gosta de futebol, pois o
autor apresenta histórias e personagens marcantes do CRF e que permite, por
meio dessa leitura, entender ou compreender o tamanho e a representatividade
que este time carrega na cultura brasileira.