A Copa do Mundo de Futebol Masculino da Federação Internacional de Futebol Associação (FIFA) 2026 tem sido anunciada como uma celebração global da diversidade, da integração entre os povos e dos valores historicamente atribuídos ao esporte. Entretanto, os acontecimentos que envolvem a preparação do evento (e principalmente em suas semanas iniciais) revelam um cenário marcado por contradições. Ao mesmo tempo em que o futebol se apresenta como elemento compotente linguagem universal capaz de aproximar culturas distintas, emergem notícias relacionadas ao endurecimento de políticas migratórias, restrições de circulação a cidadãos de determinados países e discursos de exclusão que colocam em dúvida o caráter verdadeiramente inclusivo do megaevento esportivo.
Essas tensões ganham maior relevância quando observadas à luz das relações étnico-raciais, principalmente porque uma Copa do Mundo de Futebol é uma grande vitrine para muitas problemáticas do tempo presente. Dentre as várias questões que vão aparecendo nesses períodos, como conflitos geopolíticos, tensões econômicas ou mesmo relacionadas às novas tecnologias no esporte dentro e fora do gramado, temos o racismo ganhando evidência.
O racismo não pode ser compreendido como um conjunto de episódios isolados ou referente a desvios individuais, mas como um fenômeno histórico e estrutural (Almeida, 2019), além de uma prática cotidiana (Conceição, 2023), que organiza oportunidades, privilégios, direitos, exclusões e formas de pertencimento social. Nesse contexto, as restrições impostas à circulação de determinados grupos e nacionalidades não podem ser dissociadas das hierarquias raciais construídas historicamente pelo colonialismo e reproduzidas nas dinâmicas contemporâneas do poder global.
Quando pensamos especialmente na modalidade futebol, temos um campo de observação muito rico em relação às práticas de discriminação étnico-racial, justamente porque com tamanha visibilidade - as Copas do Mundo de Futebol masculino atingem a marca dos bilhões de telespectadores em todo o mundo - os protagonistas dentro das “quatro linhas” (e das múltiplas telas) são atletas negros, com seus nomes tornando-se “marcas” (vide Kylian Mbappé, Sadio Mané, Lamine Yamal, Vinícius Júnior, Neymar, Endrick etc.) e suas atuações dignas de ídolos esportivos.
Ao observarmos a atual seleção brasileira tendo como técnico o italiano Carlo Ancelotti, identificamos que o elenco tem maioria de atletas negros (Ramos, 2026), assim como, em relação à seleção francesa, dos 26 convocados, 18 são homens negros (Benício, 2026).
Também temos visto muitos jogadores passarem por processos de naturalização, como os brasileiros Jorginho (Itália), Diego Costa (Espanha) e, na atual Copa, o jogador Maurício, que atua pela seleção do Paraguai. Outro processo que se intensificou nas últimas décadas é a migração de pessoas africanas e asiáticas para o Velho Continente em busca de proteção (segurança) ou novas oportunidades. Um contingente populacional que traz ou gera filhos e filhas que passaram a compor as categorias de base dos clubes europeus e seu destaque os leva à seleção nacional. Outro movimento consolidado no mercado da bola é a “contratação” de jovens promessas de futebolistas de sucesso agenciados ainda na infância ou adolescência, construindo seu itinerário formativo na base dos clubes e, posteriormente, com o tempo vivido no país e interesse pessoal (em razão da dupla cidadania), são naturalizados para jogar na seleção local onde vivem. Com isso, equipes que outrora eram completamente formadas por homens brancos, como França, Bélgica, Inglaterra e Países Baixos, hoje possuem atletas pardos ou negros, aumentando ainda mais a quantidade e a visibilidade de jogadores não brancos no espetáculo do futebol mundial que se realiza a cada quatro anos.
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